12/07/2017

Resenha: O Escravo de Capela - Marcos Debrito

Título: O Escravo de Capela
Autor(a): Marcos Debrito
Gênero: Terror, Literatura brasileira
Editora: Faro Editorial
Ano: 2017
Páginas: 288
Compre: Amazon - Saraiva
Sinopse: Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore. Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos. Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte. Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.


Foi apenas IMPOSSÍVEL não favoritar este livro meus amigos. A obra é de uma grandeza que parece que meus sentimentos com essa leitura não cabem dentro de mim. E sim, estamos falando de um livro de terror. Os "maus" também podem ser amados profundamente. 😜

O Escravo de Capela se passa no ano de 1792 num ainda Brasil Colônia dependente da mão de obra escrava. Temos como cenário principal a Fazenda Capela e seus arredores, que por sua vez, é uma fazenda de plantação de cana e tem como senhor Antônio Batista da Cunha Vasconcelos e seu filho e capataz, Antônio Segundo. Conhecido por sua violência nata e gosto em tirar sangue de negro, Antônio era temido por todos os escravos de Capela, que viviam a duras penas revezando seus dias entre o trabalho braçal severo e a senzala sem a mínima decência.

Em um dos últimos lotes de escravos comprados, chega à Capela o escravo Sabola Citiwala que com o espírito rebelde e clamando por liberdade, não abaixa a cabeça aos maus tratos de Antônio. Sabola fará amizade com Akili Akinsanya, um velho escravo de pernas atrofiadas, vítima da crueldade inimaginável do capataz. Juntos, eles irão tramar para a fuga de Sabola rumo a liberdade.

Porém, nem tudo pode dar certo, e logo, logo, a Fazenda Capela será aterrorizada por um escravo morto-vivo de uma perna só, que surge do meio de seu leito de descanso eterno em busca de uma vingança cruel e sanguinária.

Marcos Debrito nos faz esquecer da figura amena do Saci Pererê com a qual fomos acostumados e nos relembra as origens aterrorizantes de histórias e lendas do nosso folclore. Recriando desde o início o mito do Saci e dando seu toque particular e bem pensado, o autor mistura nosso folclore, a história feia e sofrida da criação de nosso país e toques da cultura africara trazida pelos escravos, para nos presentear com uma história de terror 100% brasileira. O Escravo de Capela é um banquete delicioso para entusiastas da nossa literatura.



Trazendo consigo um terror puro, sangrento e que fica marcado em nossa mente, o autor cria uma história verossímil e com personagens extremamente marcantes.
A violência empregada num personagem de nossas histórias infantis é explicada graças a maldade humana, que fica exposta claramente no decorrer do livro. O Brasil escravocrata não foi bonito, não foi alegre, não foi fácil de ser vivido e o autor traz isso para as páginas ao representar o sofrimento vivido pelos escravos todos os dias, desde as inúmeras chibatadas até a proibição de usar seu próprio nome, quebrando não só corpo e mente, mas também espírito. Se apoiando no desejo pérfido e cruel de grão-senhor e capataz por sangue e tortura, a violência rola solta na história e proporciona cenas de completo horror, talvez até mais fortes do que os ataques do Saci em si.

E por falar em Saci, este personagem tão intrigante é perfeitamente construído, tendo suas características marcantes ainda presentes ou substituídas por outras semelhantes - como o capuz vermelho sendo trocado por um sudário ensanguentado. A única perna é elemento marcante, e a criação desse monstro vingador poderia muito bem ser a origem real da lenda, de tão bem feito e bem escrito que é.
E temos um bônus: o autor não pensou só no Saci, ele também trouxe outro conhecido nosso para a história: a Mula sem Cabeça. Ou seja, é ou não é pra ficar super animado com esse livro? Uma origem macabra para dois personagens do nosso folclore, não dá pra ficar mais entusiasmado.

Todos os elementos que o autor coloca na trama - escravidão, a história da família principal, romance, criação do Saci - são bem amarrados e não fica nenhuma ponta solta ao final. Tudo é interligado e tudo é muito bem explicado (o que vocês sabem que eu adoro). Só não recomendo o livro para menores e pessoas de "mente fraca", pois o sangue enxarca as páginas e a violência fica gravada em nossa memória.

Eu amei, sim, AMEI esse livro e sinto que ainda me faltam palavras para exaltar a perfeição da história. Esse com certeza vai ser daqueles que eu indico pra todo mundo e não sossego enquanto algum amigo não ler e gostar. É um livro para ser lido, relido e apreciado em todas as vezes.

E por último, a edição da Faro Editorial está espetacular como sempre! Material de qualidade, imagens, beiradas das folhas vermelhas.

E termino a resenha afirmando: esse é simplesmente o melhor livro de terror que já li.

3 comentários:

  1. Pelo tema, capa e premissa me parece um convite para a leitura. Agora pela sua resenha eu fiquei fascinado pelo título.

    Grande abraço,
    www.cafeidilico.com

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  2. Nath, eu vi seu post no Instagram mas não sabia que tinha essa história do nosso folclore por trás do livro.
    Eu não sou muito fã de livros de terror, justamente porque eles transformam minha mente em um labirinto quando começa à ler livros assim, mas esse parece ser fantástico. Aparenta que o autor conseguiu unir a verdade nua e crua do Brasil escravocrata junto com nossas lendas que percorrem o país, tenho certeza que minha imagem pelo Saci que só pregava peças nas pessoas irá mudar se eu ler esse livro.

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  3. Ótima resenha. Mas a escravidão me perturba tanto e não sei se teria coragem de ler este livro. Porém, confesso que sua resenha me deixou curiosa. Bjs

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